Ela é bonita.
Não se sente assim por já lho terem dito ou porque é agradável a imitação que vê reflectida no espelho, mas porque é o que sente. Este legado não tem nada de herança genética, congénita, inata ou familiar. O que está lá dentro é que conta.
Muito mais do que a cópia que o espelho lhe aponta, prefere a que o ‘retrovisor’ lhe prova – se é que é possível que seja este que lhe lê os sarrabiscos garatujados lá ‘dentro’ ao invés das linhas que observa cá ‘fora’.
Ela é inteligente.
Não porque leu enciclopédias sem fim ou quer estudar até ao remate dos seus dias, mas porque se tornou sensível aos outros e às suas verdades. Escolheu ser conhecedora e observar o que existe aos olhos de todos, recusando a mesquinhez e a mediocridade dos outros que cegam e invadem vidas e coisas alheias. Sabe falar e estar. Sabe ser conveniente. Procura nos livros e na música o que a vida tem, mas não lhe permite ver e palpar.
Ela é comodista.
Não na forma como os ociosos sabem sê-lo quando se deitam sobre as suas próprias migalhas incapazes de se moverem para o que quer que seja, incluindo ocorência de terramoto, mas de uma forma saudável porque sabe o que quer e essa sapiência lhe sugere que a sua opção é e vai permanecer imutável apenas porque já é perfeita. Para quê alterar o que consideramos bom e seguro por algo desconhecido e abusivamente invasor.
Ela é apaixonada.
Exactamente da mesma forma que todos os amantes piegas o são. Adora e alimenta toda a lamechice dos pinga-amores, das cartas (de amor) ridículas, dos sentimentos febris, jugulares e pululantes de desejo exaltado. Às vezes não o mostra porque os outros ‘condenam’ e olham de soslaio quem assim ama e repentinamente confundem doença de amor com amor doente – que diferença abissal!
Às vezes transforma-se na outra.
Não da forma como os idiotas associam este pronome a sinónimo de amante ou segunda escolha (pobres coitados que não pensam que estoutra é a melhor ‘desculpa’ para arcar com as culpas da merda de vida que levam por não terem coragem de se comportar como amantes que arriscam e vivem muito do pouco ou nada que levam….apenas porque amam incondicionalmente)!, mas porque esses outros a ‘obrigam’ a sê-lo dada a sua (deles) incomensurável e desmedida mediocridade patológica.
Todos se transformam noutra coisa qualquer dependendo do estímulo, isto sim é uma verdade insofismável.
É assim que Ela se transforma. É assim que a Outra renasce vezes e vezes sem conta sem nunca tomar de vez o lugar que a Ela cabe. Muito embora a Outra lhe usurpe o lugar, de quando em vez, é Ela a genuína, a pura, a verdadeira. Nasceu Ela. Não sabe se vai morrer a Outra.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Senso-(des)comum
Para falar verdade não sei muito bem o que querem dizer, mas ouço muitas vezes falar através de portas, janelas e outras saídas travessas no ‘bom-senso’ que todos desejam imperador.
Sem saber muito bem quem é o magistrado nesta justa causa com a poderosa incumbência de limitar e delimitar o que é o bom-senso, não posso deixar de pensar em quem terá justeza suficiente para delinear o traço de onde acaba o bom e começa o ‘mau-senso’. Já para não falar na posição que ocupa, algures pelo meio, o senso comum (de repente, não me ocorre nenhum nome!).
Quem julga, trata, conceitua, absolve ou condena o que pertence a cada equipa permanece incógnito. Se cada um catalogar o que lhe apetece pelo seu próprio conceito de moral e pela sua tão pessoal e íntima visão do mundo, então cada um pode fazer e pensar o que lhe apetecer!, sem correr o risco de cair em erro ou mau julgamento, pois se não há árbitro à altura para sancionar o que está ou não errado a fim de o tornar correcto….talvez o erro esteja mesmo em ponderarmos entre o bom e o mau senso – se é que esta dicotomia existe! Não existem melhores ou piores juízos, tinos, sisos, sensos. Em cada indivíduo, eles são, apenas, diferentes.
Baseados naquilo que achamos bom ou mau, julgamos pessoas e situações, damos conselhos, avaliamos comportamentos, traçamos caminhos, tomamos posições, encontramos preferências, esquecendo, na maioria das vezes, que o nosso senso comum diverge do dos outros e que o que para nós é bom ou mau pode não ser concordante com o que os demais pensam. O que para uns é fastio e enfado, para outros pode ser alegria e divertimento, firmeza para uns será sinal de fraqueza para outros, valentia poderá ser cobardia, excesso de expansividade poderá ser camuflada timidez….a lista seria interminável.
Sem saber muito bem quem é o magistrado nesta justa causa com a poderosa incumbência de limitar e delimitar o que é o bom-senso, não posso deixar de pensar em quem terá justeza suficiente para delinear o traço de onde acaba o bom e começa o ‘mau-senso’. Já para não falar na posição que ocupa, algures pelo meio, o senso comum (de repente, não me ocorre nenhum nome!).
Quem julga, trata, conceitua, absolve ou condena o que pertence a cada equipa permanece incógnito. Se cada um catalogar o que lhe apetece pelo seu próprio conceito de moral e pela sua tão pessoal e íntima visão do mundo, então cada um pode fazer e pensar o que lhe apetecer!, sem correr o risco de cair em erro ou mau julgamento, pois se não há árbitro à altura para sancionar o que está ou não errado a fim de o tornar correcto….talvez o erro esteja mesmo em ponderarmos entre o bom e o mau senso – se é que esta dicotomia existe! Não existem melhores ou piores juízos, tinos, sisos, sensos. Em cada indivíduo, eles são, apenas, diferentes.
Baseados naquilo que achamos bom ou mau, julgamos pessoas e situações, damos conselhos, avaliamos comportamentos, traçamos caminhos, tomamos posições, encontramos preferências, esquecendo, na maioria das vezes, que o nosso senso comum diverge do dos outros e que o que para nós é bom ou mau pode não ser concordante com o que os demais pensam. O que para uns é fastio e enfado, para outros pode ser alegria e divertimento, firmeza para uns será sinal de fraqueza para outros, valentia poderá ser cobardia, excesso de expansividade poderá ser camuflada timidez….a lista seria interminável.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Coragem
É dos fracos que a história não reza. São os fortes que lhes ganham a corrida aos pontos e nos momentos mais importantes. Não deveriam ser estes, mas os puramente românticos a ter lugar no pódio e a trajar a camisola amarela. Tinha que dizer isto hoje, pois foi hoje (e é tão raro) que presenciei um acto de amor.
Trabalho num edifício que tem uma vista panorâmica privilegiada da cidade do Porto, muito próximo da Ponte da Arrábida. Estava a executar mais uma das muitas tarefas enfadonhas que me cumpre fazer quando olho lá para fora e vejo uma avioneta a rasgar o céu com uma mensagem que dizia: ‘Amo-te Patrícia. Fica comigo’.
Fiquei totalmente rendida. Ficámos totalmente rendidas. Eu e todas as outras mulheres do departamento, arrisco mesmo a espraiar a rendição a todas as mulheres do edifício que tem nada mais, nada menos do que nove andares. E que eu saiba essa tal de Patrícia nem sequer cá trabalha! Não há justiça neste mundo!
Fiquei a pensar ‘e se este tipo se deu a este trabalho (e dinheiro) todo para esta mulher nem sequer ver a mensagem’? – que desperdício de euros, esforço, recursos, coragem e paixão. É por um momento deste que uma mulher espera uma vida inteira. Abençoados os homens/amantes com este tipo de sensibilidade (para alguns será desespero) e com coragem e ambição para aparecerem a ‘nu’ perante o ser amado e com público a assistir. Uma coisa vos garanto, todas as mulheres que assistiram a isto ficaram embevecidas e asseguro-vos que a maior percentagem delas nem sequer se chamava Patrícia!
Trabalho num edifício que tem uma vista panorâmica privilegiada da cidade do Porto, muito próximo da Ponte da Arrábida. Estava a executar mais uma das muitas tarefas enfadonhas que me cumpre fazer quando olho lá para fora e vejo uma avioneta a rasgar o céu com uma mensagem que dizia: ‘Amo-te Patrícia. Fica comigo’.
Fiquei totalmente rendida. Ficámos totalmente rendidas. Eu e todas as outras mulheres do departamento, arrisco mesmo a espraiar a rendição a todas as mulheres do edifício que tem nada mais, nada menos do que nove andares. E que eu saiba essa tal de Patrícia nem sequer cá trabalha! Não há justiça neste mundo!
Fiquei a pensar ‘e se este tipo se deu a este trabalho (e dinheiro) todo para esta mulher nem sequer ver a mensagem’? – que desperdício de euros, esforço, recursos, coragem e paixão. É por um momento deste que uma mulher espera uma vida inteira. Abençoados os homens/amantes com este tipo de sensibilidade (para alguns será desespero) e com coragem e ambição para aparecerem a ‘nu’ perante o ser amado e com público a assistir. Uma coisa vos garanto, todas as mulheres que assistiram a isto ficaram embevecidas e asseguro-vos que a maior percentagem delas nem sequer se chamava Patrícia!
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Afazeres
Uma grande parte das nossas vidas é escrita, registada e, escrupulosamente, listada. Há uma necessidade organizacional inata em nós que nos faz listar o que é importante, o que é útil e (muitas vezes) não é, mas que não tencionamos olvidar.
É a lista das compras que é urgente fazer, a lista dos casamentos e prendas a receber, o rol dos convivas que queremos convidar, a relação do que queremos na mala antes de viajar, a lista das prendas que desejamos ofertar, o ror das pessoas cujos aniversário não pretendemos esquecer, a relação dos livros que ainda queremos ler, a lista dos ingredientes daquela sobremesa perfeita a rematar o jantar a dois, a lista dos sonhos por concretizar e dos sítios estupendos que queremos conhecer.
De todas estas listas que fazemos mental, intelectual e até fisicamente, a maioria das vezes sem sabermos, podem ser de dois tipos: as ‘de certeza’ e as ‘talvez’. É incrível como só me dei conta disto 31 anos após ter nascido….mas é verdade! Talvez ande um nadinha distraída. As primeiras são as que temos mesmo que fazer, impreterivelmente e sem lugar para dúvida. As segundas queremos fazer ou podem vir a ser feitas mas não significa que a nossa vida dependa disso ou tenhamos um prazo cronológico muito definido para as realizarmos. Uma coisa aprendi, mas também não era difícil, ainda que eu ande, como já disse, desatenta: uma ‘talvez’ pode vir a transformar-se numa ‘de certeza’, mas uma ‘de certeza’ nunca será uma ‘talvez’.
É a lista das compras que é urgente fazer, a lista dos casamentos e prendas a receber, o rol dos convivas que queremos convidar, a relação do que queremos na mala antes de viajar, a lista das prendas que desejamos ofertar, o ror das pessoas cujos aniversário não pretendemos esquecer, a relação dos livros que ainda queremos ler, a lista dos ingredientes daquela sobremesa perfeita a rematar o jantar a dois, a lista dos sonhos por concretizar e dos sítios estupendos que queremos conhecer.
De todas estas listas que fazemos mental, intelectual e até fisicamente, a maioria das vezes sem sabermos, podem ser de dois tipos: as ‘de certeza’ e as ‘talvez’. É incrível como só me dei conta disto 31 anos após ter nascido….mas é verdade! Talvez ande um nadinha distraída. As primeiras são as que temos mesmo que fazer, impreterivelmente e sem lugar para dúvida. As segundas queremos fazer ou podem vir a ser feitas mas não significa que a nossa vida dependa disso ou tenhamos um prazo cronológico muito definido para as realizarmos. Uma coisa aprendi, mas também não era difícil, ainda que eu ande, como já disse, desatenta: uma ‘talvez’ pode vir a transformar-se numa ‘de certeza’, mas uma ‘de certeza’ nunca será uma ‘talvez’.
domingo, 15 de junho de 2008
Miolo
É profundo o que sinto.
É enorme, está cavado bem fundo, bem lá no fundo. Em palmos ou peso é imensurável, mas em profundeza.....
Tudo o que vivo, transpiro e sinto é mensurável em profundidade. O resto não conta...ou melhor, conta, mas é anexo, apêndice.
O que existe de mais precioso é o que está guardado, cosido e costurado no mais íntimo e recôndito espaço de cada um de nós.
Porquê?
Porque o resto todos vêem, observam, contemplam, analisam, tocam, sem consentimento....o que está de fora, o corpo e os seus movimentos, gritos e atitudes estão ao alcance daqueles de quem gostamos muito, pouco ou mesmo nada. Não tem valor especial, não é distinto, é imitação de comportamento repetido em série vez após vez...
O que é único, específico, exclusivo e ímpar em cada indivíduo só se dá a conhecer a um número muitíssimo reduzido de pessoas: os privilegiados.
É dessas e com essas personalidades que se escreve a nossa vida. São eles que fazem parte dela, a compõem e compreendem. São os actores principais no meio de milhares de actores acessórios, acidentais e secundários.
É aos principais que abrimos a porta da frente e, ao mesmo tempo, a porta das traseiras e todas as janelas, frinchas, entradas, saídas, portões, grades, escapatórias, portagens (as quais, deliberadamente, tornamos gratuitas e sem ingresso obrigatório).
Destas almas tão importantes e oportunas não queremos nós separar-nos. Estão agarradas e são absolutamente necessárias....senão a quem poderíamos nós virarmo-nos do avesso? Quem nos iria aplaudir ou ralhar quando os holofotes da ribalta estivessem para nós virados? A quem haveríamos nós de evidenciar ou ofertar o nosso protagonismo? A resposta é fácil.....para quem gravita em torno de nós, no mesmo palco de partilha da vida, dos sentidos e sentimentos mais inócuos e castos. Neste nosso cenário onde não há distinção entre actor principal e secundário, onde todos escrevem história sem maior ou menor grau de omnisciência ou omnipresença. Quem pisa o palco é conhecedor, participa, escreve por linhas direitas e tortas, vive e revive. O ‘público’ é absoluta e necessariamente o mais desconhecedor, está ali por acréscimo (alguém tinha que pagar o bilhete). Estou-me nas tintas para os seus elogios, louvores, críticas, apupos, vaias ou aplausos. Não é destes que reza a minha história.
É enorme, está cavado bem fundo, bem lá no fundo. Em palmos ou peso é imensurável, mas em profundeza.....
Tudo o que vivo, transpiro e sinto é mensurável em profundidade. O resto não conta...ou melhor, conta, mas é anexo, apêndice.
O que existe de mais precioso é o que está guardado, cosido e costurado no mais íntimo e recôndito espaço de cada um de nós.
Porquê?
Porque o resto todos vêem, observam, contemplam, analisam, tocam, sem consentimento....o que está de fora, o corpo e os seus movimentos, gritos e atitudes estão ao alcance daqueles de quem gostamos muito, pouco ou mesmo nada. Não tem valor especial, não é distinto, é imitação de comportamento repetido em série vez após vez...
O que é único, específico, exclusivo e ímpar em cada indivíduo só se dá a conhecer a um número muitíssimo reduzido de pessoas: os privilegiados.
É dessas e com essas personalidades que se escreve a nossa vida. São eles que fazem parte dela, a compõem e compreendem. São os actores principais no meio de milhares de actores acessórios, acidentais e secundários.
É aos principais que abrimos a porta da frente e, ao mesmo tempo, a porta das traseiras e todas as janelas, frinchas, entradas, saídas, portões, grades, escapatórias, portagens (as quais, deliberadamente, tornamos gratuitas e sem ingresso obrigatório).
Destas almas tão importantes e oportunas não queremos nós separar-nos. Estão agarradas e são absolutamente necessárias....senão a quem poderíamos nós virarmo-nos do avesso? Quem nos iria aplaudir ou ralhar quando os holofotes da ribalta estivessem para nós virados? A quem haveríamos nós de evidenciar ou ofertar o nosso protagonismo? A resposta é fácil.....para quem gravita em torno de nós, no mesmo palco de partilha da vida, dos sentidos e sentimentos mais inócuos e castos. Neste nosso cenário onde não há distinção entre actor principal e secundário, onde todos escrevem história sem maior ou menor grau de omnisciência ou omnipresença. Quem pisa o palco é conhecedor, participa, escreve por linhas direitas e tortas, vive e revive. O ‘público’ é absoluta e necessariamente o mais desconhecedor, está ali por acréscimo (alguém tinha que pagar o bilhete). Estou-me nas tintas para os seus elogios, louvores, críticas, apupos, vaias ou aplausos. Não é destes que reza a minha história.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Solidão
É verdade que podemos estar cercados de um punhado de dezenas de pessoas e sentirmo-nos, incrivelmente, sós e isolados.
Mascarada e dissimulada de várias formas, figuras, feitios, retalhos e recortes, a solidão aparece furtiva e sorrateiramente, sem nos apercebermos, e instala-se de armas, arreios e bagagens, encostada e envolta em nós como gesso em perna partida ou nó de marinheiro bem ataviado que estrangula, aperta e enlaça o espírito, a consciência e o bem-estar.
Consideramo-nos, quase sempre, inexcedíveis, invencíveis, invictos e insuperáveis. Achamo-nos auto-suficientes e incrivelmente menos dependentes e pertencentes do que os outros. Gostamos de pensar que não precisamos de ninguém e adoptamos uma postura de ilha deserta, sem reconhecermos que seremos SEMPRE península habitada com braço agarrado a terra, assim como feto umbilicalmente preso e dependente da progenitora antes de ter respirado um autónomo bafejo de vida.
Sinto saudades de amar no formato mais completo de nos ligarmos a alguém e matarmos a solidão que morde silenciosa dentro de nós. Quando falo em amar, não falo de amor de amigo ou amor de pai, mãe ou irmã, mas de amor entre homem e mulher. Por muito bem que vivamos a sós, o que queremos mesmo é ter alguém para mimar e com quem partilhar a vida, seja lá tudo o que isso for. A melhor parte de nós é aquela que temos para oferecer sem pensar no receber: é a mais genuína, a mais rica e abonada, a mais autêntica, franca e intrínseca. É o que está incrustado e cravado em cada brecha de nós. É natural, não tem artifício ou aldrabice escondida. Não custa dinheiro, custa apenas entrega pura e absoluta sem lugar para feitios, orgulhos, defeitos, poderios e posses, mesquinhez ou outro rol de sentimentos subalternos homólogos.
Mascarada e dissimulada de várias formas, figuras, feitios, retalhos e recortes, a solidão aparece furtiva e sorrateiramente, sem nos apercebermos, e instala-se de armas, arreios e bagagens, encostada e envolta em nós como gesso em perna partida ou nó de marinheiro bem ataviado que estrangula, aperta e enlaça o espírito, a consciência e o bem-estar.
Consideramo-nos, quase sempre, inexcedíveis, invencíveis, invictos e insuperáveis. Achamo-nos auto-suficientes e incrivelmente menos dependentes e pertencentes do que os outros. Gostamos de pensar que não precisamos de ninguém e adoptamos uma postura de ilha deserta, sem reconhecermos que seremos SEMPRE península habitada com braço agarrado a terra, assim como feto umbilicalmente preso e dependente da progenitora antes de ter respirado um autónomo bafejo de vida.
Sinto saudades de amar no formato mais completo de nos ligarmos a alguém e matarmos a solidão que morde silenciosa dentro de nós. Quando falo em amar, não falo de amor de amigo ou amor de pai, mãe ou irmã, mas de amor entre homem e mulher. Por muito bem que vivamos a sós, o que queremos mesmo é ter alguém para mimar e com quem partilhar a vida, seja lá tudo o que isso for. A melhor parte de nós é aquela que temos para oferecer sem pensar no receber: é a mais genuína, a mais rica e abonada, a mais autêntica, franca e intrínseca. É o que está incrustado e cravado em cada brecha de nós. É natural, não tem artifício ou aldrabice escondida. Não custa dinheiro, custa apenas entrega pura e absoluta sem lugar para feitios, orgulhos, defeitos, poderios e posses, mesquinhez ou outro rol de sentimentos subalternos homólogos.
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