Sabia que a boa nova chegaria um dia e como suplemento a responsabilidade do que fazer com ela.
A época ditava o que se sabia velho, novo e ainda por nascer. Desconhecedores os sujeitos, agora, do real efeito de tamanho fardo.
O tempo fora ladrão, daqueles que roubam tamanha riqueza sem levarem castigo ou punição. O mesmo tempo que assassinamos sem nunca percebermos que é ele quem nos mata a nós próprios sem pedido de licença escrito ou falado, prévio ou póstumo.
É na nossa própria (e, por vezes, asinina) cabeça que melhor nos admoestamos. Sem talento, vocação, engenho ou arte para a auto-salvação é, muitas vezes, pela de outrem que mais ansiamos sem logro ou patranha embusteada para nós mesmos. Se coragem nos falta para nos redimirmos dos nossos pecadilhos, falhas ou comportamentos consequentemente desajustados daquilo que ambicionamos, é nos outros que depositamos esperanças, assentamos embalo e alento, confiamos aspirações.
Sabemos que a vida é capaz de ser sacana e patife como só ela sabe? Ou será que consegue, apenas, ser justa em duelo ou disputa privada quando concorre amancebada connosco e nos troca as voltas e meias-voltas em concubinato com aquilo que queremos e ao contrário fazemos?
É certo que a vida corre, o tempo não volta, não cresce, decresce. Obtura, obstrui e arrolha tudo de uma vez. Não é criterioso, marca, não estanca, mas carimba e etiqueta o que contenta, apazigua, alegra, magoa, pisa, lacera, rasga e dói.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Se me mudam....
Sempre soube o que queria e afiançou-se que depois de uma série de episódios tramados não ia esfolar os joelhos por dá-cá-aquela-palha.
No tempo que falta ao tempo que sobra desvendou satisfação nas pequenas coisas encetadas, concluídas e valorizadas a sós, por isso mesmo ou só porque sim, numa capacidade fortuita e quase acidental de se abjurar a si própria do que sofre, faz sofrer e é sofredor.
Dito e redito vezes sem conta, não deseja retiros ou isolamentos forçados, não se proibiu amar, mas vedou sentimentos.
Nascida sem resguardo, protecção ou defesa aditada, aderiu ao trapézio com rede, menos holywoodesco, mas mais amparado, refúgio protector de existência bem mais arrimado que permite viver, e não sobreviver, com travão, marcha à ré ou airbags.
Parece gostar do que sente agora: sensação de paixão purificadora descoberta numa catarse bilateral, impressa e refundida em afagos, desvelos e cuidados.
Não lhe parece, ainda, inferior a vida sem amor, agora. Não sabe como se lhe apresentará a questão em dias, semanas ou meses.
Perdeu pequenas/grandes coisas.
Disso está certa, como genuína será a proeza de ter conseguido beneficiar de outras tantas.
Aprenderá, um dia, se, surpreendentemente, a ensinarem a arriscar num limbo noctâmbulo sem pavor de um fimbriado e agitador estalar de dedos.
No tempo que falta ao tempo que sobra desvendou satisfação nas pequenas coisas encetadas, concluídas e valorizadas a sós, por isso mesmo ou só porque sim, numa capacidade fortuita e quase acidental de se abjurar a si própria do que sofre, faz sofrer e é sofredor.
Dito e redito vezes sem conta, não deseja retiros ou isolamentos forçados, não se proibiu amar, mas vedou sentimentos.
Nascida sem resguardo, protecção ou defesa aditada, aderiu ao trapézio com rede, menos holywoodesco, mas mais amparado, refúgio protector de existência bem mais arrimado que permite viver, e não sobreviver, com travão, marcha à ré ou airbags.
Parece gostar do que sente agora: sensação de paixão purificadora descoberta numa catarse bilateral, impressa e refundida em afagos, desvelos e cuidados.
Não lhe parece, ainda, inferior a vida sem amor, agora. Não sabe como se lhe apresentará a questão em dias, semanas ou meses.
Perdeu pequenas/grandes coisas.
Disso está certa, como genuína será a proeza de ter conseguido beneficiar de outras tantas.
Aprenderá, um dia, se, surpreendentemente, a ensinarem a arriscar num limbo noctâmbulo sem pavor de um fimbriado e agitador estalar de dedos.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
A primeira
Tinha sido assim esta noite.
Tímida, envergonhada, retraída, encavacada, aliás como todos os encontros prévios, não fosse a forma como se tinham conhecido menos convencional do que o costume ou razoavelmente menos aceitável para um punhado de pessoas.
Depois do primeiro impacto e transposto o inicial desassossego acompanhado da inquietude aflitiva das borboletas no estômago, a vontade refreada pelo medo tinha alcançado tamanho ímpeto que a vontade de estar e ficar começara a ganhar forma, conteúdo e recheio.
O sono era muito, a aptidão para o concretizar muito pouca entre discretas carícias, beijos acanhados e contidos abraços. Não fazia mal que não tivesse dormido a valer, pois que a valer tinha sido o encontro, adiado o repouso para quando não se tornasse desperdício perder um toque de mãos ou para quando visse retalhados e minguados os encontros seguintes.
(Sabia do que gostava.
Que a vida podia dar-lhe prazer e que talvez pudesse até melhorar, mas que nem sempre as suas mãos eram patroas do destino. Não simpatizava com as contrariedades da ‘relação’ à distância e da separação contrafeita que coava, lentamente, a vontade de investir sem medo, sem trapézio e sem rede).
Tímida, envergonhada, retraída, encavacada, aliás como todos os encontros prévios, não fosse a forma como se tinham conhecido menos convencional do que o costume ou razoavelmente menos aceitável para um punhado de pessoas.
Depois do primeiro impacto e transposto o inicial desassossego acompanhado da inquietude aflitiva das borboletas no estômago, a vontade refreada pelo medo tinha alcançado tamanho ímpeto que a vontade de estar e ficar começara a ganhar forma, conteúdo e recheio.
O sono era muito, a aptidão para o concretizar muito pouca entre discretas carícias, beijos acanhados e contidos abraços. Não fazia mal que não tivesse dormido a valer, pois que a valer tinha sido o encontro, adiado o repouso para quando não se tornasse desperdício perder um toque de mãos ou para quando visse retalhados e minguados os encontros seguintes.
(Sabia do que gostava.
Que a vida podia dar-lhe prazer e que talvez pudesse até melhorar, mas que nem sempre as suas mãos eram patroas do destino. Não simpatizava com as contrariedades da ‘relação’ à distância e da separação contrafeita que coava, lentamente, a vontade de investir sem medo, sem trapézio e sem rede).
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Vidas
Sentia que sabia o que era pelo que tinha sido sabendo claramente o que seria amanhã. O que conhecia da vida parecia muito não passando, afinal, de uma reentrância de nada.
O ‘mata-bicho’ era sempre o mesmo: (basicamente o espelho de tudo na vida, repetido e renovado vezes sem conta) um naco de broa já envelhecido intermitentemente mergulhado na caneca de leite com uma pálida cevada, minguado em dias de semana e trabalho, dilatado em dia de Domingo de missa, de hóstia e de dar Graças-A-Deus mais que o costume.
Despertava antes do dia acordar, combinava o parco banho de água gelada com a geada orvalhada que durava lá fora, agasalhava-se e aconchegava no alforge a familiar porção de broa combinada com o naco de toucinho fumado que lhe amparava o estômago na fadiga do dia e na canseira dos caminhos da serra e das cabras.
Estas, com as ovelhas que pastorava havia anos, eram as companheiras perfeitas desde que se lembrava que o mundo era (o seu) mundo e que talvez tivesse nascido apenas para aquilo. Não percebia nada de anatomia, tecnologia, astronomia, política ou economia. A única versão que conhecia desta última era traduzida em alqueires de milho ou câmbio directo de mel por leite ou tudo que fizesse falta e não se produzisse lá em casa.
Nunca tinha usado maquilhagem nem saltos altos e a única jóia que tinha era um fio de pérolas muito remotamente autênticas deixado pela mãe num testamento ajustado. Tinha na alma e na pele marcadamente vincados o calor e o frio dos dias difíceis. Não conhecera outros. Tinha crescido ou talvez não … nem sabia. Tornara-se irmã, mulher, casada, mãe e, na maioria das vezes, sem se ter dado conta. Desconhecia as letras e as cartas de amor e os livros bonitos que via nos filhos, ignorava o que era enrubescer de afeição ou ruborizar de desejo, inexplicáveis que eram as ânsias de quem nunca amou ou conheceu o amor como teria merecido.
Tinha sido e era feliz.
Pois não será ou terá sido bem-aventurado aquele que não conheceu outras vidas?
O ‘mata-bicho’ era sempre o mesmo: (basicamente o espelho de tudo na vida, repetido e renovado vezes sem conta) um naco de broa já envelhecido intermitentemente mergulhado na caneca de leite com uma pálida cevada, minguado em dias de semana e trabalho, dilatado em dia de Domingo de missa, de hóstia e de dar Graças-A-Deus mais que o costume.
Despertava antes do dia acordar, combinava o parco banho de água gelada com a geada orvalhada que durava lá fora, agasalhava-se e aconchegava no alforge a familiar porção de broa combinada com o naco de toucinho fumado que lhe amparava o estômago na fadiga do dia e na canseira dos caminhos da serra e das cabras.
Estas, com as ovelhas que pastorava havia anos, eram as companheiras perfeitas desde que se lembrava que o mundo era (o seu) mundo e que talvez tivesse nascido apenas para aquilo. Não percebia nada de anatomia, tecnologia, astronomia, política ou economia. A única versão que conhecia desta última era traduzida em alqueires de milho ou câmbio directo de mel por leite ou tudo que fizesse falta e não se produzisse lá em casa.
Nunca tinha usado maquilhagem nem saltos altos e a única jóia que tinha era um fio de pérolas muito remotamente autênticas deixado pela mãe num testamento ajustado. Tinha na alma e na pele marcadamente vincados o calor e o frio dos dias difíceis. Não conhecera outros. Tinha crescido ou talvez não … nem sabia. Tornara-se irmã, mulher, casada, mãe e, na maioria das vezes, sem se ter dado conta. Desconhecia as letras e as cartas de amor e os livros bonitos que via nos filhos, ignorava o que era enrubescer de afeição ou ruborizar de desejo, inexplicáveis que eram as ânsias de quem nunca amou ou conheceu o amor como teria merecido.
Tinha sido e era feliz.
Pois não será ou terá sido bem-aventurado aquele que não conheceu outras vidas?
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Little Big Things
Pensarmos nas coisas, dissecá-las, anatomizá-las e, depois, ainda, decidir o que fazer com a polpa que aproveitamos delas não é, nunca foi nem será tarefa fácil. Entendamos ‘coisas’ como aquilo que nos dizem, ouvimos, lemos, as verdades ciciadas, os pensamentos furtivos, as acrobacias literárias contidas num livro traduzidas em habilidades estilísticas e recursos mais ou menos expressivos que nos rasgam a boca em O.
Cada um (des)complica as verdades, as mentiras e as dúvidas à sua maneira e a seu bel-prazer. Alguns, não poucos, lêem, vêem, ouvem e experimentam sem nunca perceberem peva de coisa nenhuma ou quererem ler os segundos ou terceiros sentidos naquilo que as almas mais sensíveis, mas exoneradamente mais inócuas, são, escrevem, agem e falam.
Verdades, mentiras, interpretações, sensibilidades e inteligências à parte, o que importa, acima de tudo, é que estejam atentos e não passem absortos por esta única oportunidade de vida que é só esta e mais nenhuma.
Cada um (des)complica as verdades, as mentiras e as dúvidas à sua maneira e a seu bel-prazer. Alguns, não poucos, lêem, vêem, ouvem e experimentam sem nunca perceberem peva de coisa nenhuma ou quererem ler os segundos ou terceiros sentidos naquilo que as almas mais sensíveis, mas exoneradamente mais inócuas, são, escrevem, agem e falam.
Verdades, mentiras, interpretações, sensibilidades e inteligências à parte, o que importa, acima de tudo, é que estejam atentos e não passem absortos por esta única oportunidade de vida que é só esta e mais nenhuma.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Era livre assim como o vento.
Não queria fardos nas asas nem sentimentos de falta de nada que lhe pudessem emaranhar a vida mais tarde ou mais longe.
Era feliz ou já nem sabia bem o que seria agora que podia sentir que já o não era ou não tinha sido.
Limitara em si e nos outros o que se permitia sofrer com ou sem o assentimento daquilo que lhe parecia aceitável.
Tinha a mão estendida a tudo o que fosse bom sentir e a fizesse alegrar.
Queria o desconhecido já que o conhecido não lhe tinha trazido quase nada de bom e se o fora já era tão longe que não se lembrava.
Olvidava depressa e para trás das asas o que não importava por não ser favorável.
Guardava no peito as promessas douradas dos dias de amor e na cabeça as tranças feitas com juras eternas de afecto e desvelo.
Fazia-lhe falta querer desprender-se de uma vida remota e passível à frente de ser bem vivida.
Era bom ser assim livre e sonhar e pensar que tudo era possível e que a vida era fácil assim….só assim.
Não queria fardos nas asas nem sentimentos de falta de nada que lhe pudessem emaranhar a vida mais tarde ou mais longe.
Era feliz ou já nem sabia bem o que seria agora que podia sentir que já o não era ou não tinha sido.
Limitara em si e nos outros o que se permitia sofrer com ou sem o assentimento daquilo que lhe parecia aceitável.
Tinha a mão estendida a tudo o que fosse bom sentir e a fizesse alegrar.
Queria o desconhecido já que o conhecido não lhe tinha trazido quase nada de bom e se o fora já era tão longe que não se lembrava.
Olvidava depressa e para trás das asas o que não importava por não ser favorável.
Guardava no peito as promessas douradas dos dias de amor e na cabeça as tranças feitas com juras eternas de afecto e desvelo.
Fazia-lhe falta querer desprender-se de uma vida remota e passível à frente de ser bem vivida.
Era bom ser assim livre e sonhar e pensar que tudo era possível e que a vida era fácil assim….só assim.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Os Miseráveis
Criticam e
Apreciam e
comentam……
e revelam
….a vida dos outros com pormenores e detalhes que não lembram ao Diabo nem a nós perguntar quanto mais cogitar tampouco saber.
Não nos interessavam, sequer, essas secretas preciosidades porque….e apenas porque… desconhecemos em profundidade o alvo da peçonha alheia uma vez que bom cego será sempre aquele que não quer ver ou (melhor ainda) que não tem interesse nenhum em enxergar o que não tem qualquer importância ou mesmo utilidade para ser sabido.
Confuso?!
Confusa será a mente daqueles que a isto, e a nada mais, se dedicam….com tempo de sobra para tudo!!, sendo essa a parte mais (ou menos) curiosa, confusa e inexplicável deste maquinismo atroz.
Que me interessa a mim saber das histórias de alcova, lençóis (alguidar ou outros utensílios congéneres) de a, b ou c?, ou conhecer os vícios e hábitos daqueles que nada me dizem?
Com que objectivo obscuro desdenham e desprezam a vida dos outros com o derradeiro intuito de comprarem a condenada e rebaixada mercadoria a custo zero para si e a preço incalculável para o triste visado?
Não sei se sou eu que complico e, por ser tão claro para mim o que sou e vejo, não sei clarificar melhor o que me arrelia nos falsos bonzinhos que entre nós coabitam e connosco convivem. Condeno veementemente os que vivem a vida d’ outros e no meio deste enxovalhanço lancinante se dão bem ao lançarem o veneno sozinhos e, no mesmo segundo, e à socapa, sorverem o indispensável antídoto.
Apreciam e
comentam……
e revelam
….a vida dos outros com pormenores e detalhes que não lembram ao Diabo nem a nós perguntar quanto mais cogitar tampouco saber.
Não nos interessavam, sequer, essas secretas preciosidades porque….e apenas porque… desconhecemos em profundidade o alvo da peçonha alheia uma vez que bom cego será sempre aquele que não quer ver ou (melhor ainda) que não tem interesse nenhum em enxergar o que não tem qualquer importância ou mesmo utilidade para ser sabido.
Confuso?!
Confusa será a mente daqueles que a isto, e a nada mais, se dedicam….com tempo de sobra para tudo!!, sendo essa a parte mais (ou menos) curiosa, confusa e inexplicável deste maquinismo atroz.
Que me interessa a mim saber das histórias de alcova, lençóis (alguidar ou outros utensílios congéneres) de a, b ou c?, ou conhecer os vícios e hábitos daqueles que nada me dizem?
Com que objectivo obscuro desdenham e desprezam a vida dos outros com o derradeiro intuito de comprarem a condenada e rebaixada mercadoria a custo zero para si e a preço incalculável para o triste visado?
Não sei se sou eu que complico e, por ser tão claro para mim o que sou e vejo, não sei clarificar melhor o que me arrelia nos falsos bonzinhos que entre nós coabitam e connosco convivem. Condeno veementemente os que vivem a vida d’ outros e no meio deste enxovalhanço lancinante se dão bem ao lançarem o veneno sozinhos e, no mesmo segundo, e à socapa, sorverem o indispensável antídoto.
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